South Park: impossível ser mais politicamente correto

Se você ainda não ouviu falar no South Park, o desenho maduro para gente imatura, basta pesquisar. A wikipedia possui informações relevantes a respeito, mas, resumidamente, trata-se de uma animação com um linguajar bastante boca-suja. Teoricamente, trata-se de um desenho voltado para o público adulto (difícil é conceituar público adulto).

Mas o South Park não se limita a um palavreado chulo, pois vem no pacote certa dose de violência e obscenidades em geral, além de forte satirização de vícios inerentes ao ser humano. Muitas pessoas não admitem que o que é retratado no desenho ocorre na vida real, como a xenofobia…

Eu li um texto recentemente, publicado há mais de 10 anos no site da Revista Superinteressante, que corrobora a tese de alguns, no sentido de que o South Park faz uma crítica politicamente correta à nossa sociedade politicamente incorreta (pseudo-politicamente correta). Eis um trecho interessante:

Um exemplo disso é o episódio no qual os garotinhos fazem uma doação para as crianças da Etiópia. Não, os pequenos egoístas não foram tocados por um repentino impulso humanitário – estavam apenas interessados no relógio digital que receberiam de brinde. Acontece que a organização beneficente se engana e, em vez de entregar o relógio, deixa um garoto etíope na casa de Cartman. A criança negra enfrenta a esperada incompreensão da cidadezinha caipira. Passados alguns dias, porém, algo interessante acontece. O etíope vai ficando tão canalha quanto seus contemporâneos americanos. Tanto que acaba preparando uma armadilha para mandar Cartman para a Etiópia no lugar dele.

A história não tem pé nem cabeça. Acontece que esse enredo absolutamente inverossímil acabou colocando um americano bem-alimentado no meio do sufoco da África miserável. Ao mesmo tempo, mostrou que uma criança etíope tem tantas fraquezas e é tão humana quanto qualquer branquelo do Colorado. Pode parecer óbvio, mas bem poucas pessoas lembram que aqueles sujeitos passando fome nos trópicos são gente como elas. É incômodo demais pensar nisso, para o bem e para o mal. O episódio expõe a ferida com escracho e enfia o dedo nela sem precisar adotar um discurso engajado e chato. Por isso, atinge melhor as pessoas do que muito documentário da BBC.

Mas não para por aí.

Recentemente tivemos o caso de uma atriz que teve fotos íntimas que foram parar na internet. Até que não se se levou tanto para o lado da moral, porque tudo foi focado na chantagem. Mas é corriqueiro, hoje em dia, vizinho flagrar uma pessoa se masturbando/mantendo relação sexual — ou algum vídeo que fulano(a) faz para alguém ou por puro narcisismo — e ser tachado como imoral, quando cai na internet. E, muitas vezes, as mesmas pessoas que taxam isso de imoral assistem a Big Brothers da vida (com suas sugestões sexuais), esbaldam-se no carnaval (no sentido profano), praticam bullying etc. Não que assistir programas com sugestão sexual seja imoral (a sexualidade é inerente ao ser humano, ao menos biologicamente), mas é contraditório e hipócrita criticar o outro porque externou a sua sexualidade de outra forma. Note-se que estou citando casos de pessoas que tiveram sua privacidade invadida, e não quem faz certas coisas em público.

É aquela velha história: a moral é relativa.

Voltando ao South Park, quando assisto não o faço com um olhar crítico, para analisar como determinado episódio é (ou pode/poderá ser) uma crítica a nossa sociedade; assisto simplesmente porque é peculiar. Cheguei à conclusão de que é uma crítica politicamente correta recentemente (frise-se).

E que fique bem claro: o fato de a pessoa não gostar de South Park não a torna hipócrita…

Outros desenhos tidos como bizarros, como Happy Tree Friends, Futurama, Drawn Together (Casa Animada), Ugly Americans, apesar de uma temática adulta, nunca parei para analisar (não me lembro sequer se cheguei a acompanhar um episódio inteiro).

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